REFLEXÕES...
Na
solidão desta infinita floresta densa onde procuro indícios de mim próprio e os
meus próprios cacos para me reconstruir, passo muito tempo a reflectir sobre
mim, sobre ti, sobre nós e sou capaz de desenhar o nosso próprio perfil,
vislumbrar aquilo que podemos querer e não querer da vida.
Levanto as folhas caídas no
Inverno e vislumbro desejos de admiração profunda-recíproca-mútua, amor
incondicional. Afectos, carinhos, ternuras, compreensões.
Em reflexão compulsiva
surges-me sonho-mulher diferente de todas as que já comigo percorreram caminhos
da vida, que me possuiram e que eu possuí, todas tão iguais, todas tão
diferentes.
Olho-as sequencialmente
dispostas na parede de uma galeria de arte, da esquerda para a direita ou do
passado para o presente e cada uma é diferente das outras e, à medida que
percorro a linha do tempo, constato que cada uma é uma espécie de soma das
anteriores. É como se a mulher amada num determinado momento fosse um somatório
das amadas no passado. Tudo acontece como se a minha reacção a um conjunto de
estímulos físicos e comportamentais, heterogéneos porque diferentes, como se esses
estímulos tivessem um efeito aditivo potenciador de uma reacção minha
qualitativamente nova e quantitativamente superior.
Cada amor acrescenta assim
qualquer coisa ao anterior, cada amor é avassaladoramente maior. Cada amor é
uma reconstrução dos anteriores num conjunto mais rico e estimulante dos amores
passados que se foram somando com o tempo e que tu concentras no teu ser
divinamente luxuriante. Tu és tu, nova, acrescida da soma do que de avassalador
fui encontrando nos caminhos que trilhei. Mas, tendo trilhado muitos há um dia
em que os caminhos se fizeram auto-estradas e tu-nova-soma és agora o fim,
perfeição anunciada e esperada ao longo de caminhos, atalhos, ruas e vielas e
muitas e muitas estradas. Encontrei finalmente tu-nova-soma-perfeição e o resto
do percurso poderia ser contigo, minha utopia... até que a morte nos separe.
Então agora configuro-te amiga,
amante, confidente, a cúmplice de tudo o que eu fizer, bem ou mal, tu,
condescendente, amante apaixonada. No teu corpo procuro o Sol e no teu coração
a Lua, no teu amor o mágico fascínio e o cheiro das manhãs, que o teu silêncio me
obrigue a sonhar. De dia, uma menina, à noite uma mulher na recriação diária de
um sentido de romance, cúmplice, sempre
cúmplice, doce pecado.
Um compromisso total.
Fidelidade, confiança, relação exclusiva, desejo louco, mútuo, profundo.
Acarinhar-te, surpreender-te, dar-te a mão, afagar-te o cabelo e beijar-te.
Ter planos conjuntos,
partilhar, tomar conta de ti como tu de mim, ser a coisa mais importante no teu
mundo, tu no meu, ser o único homem na tua vida, tu a única mulher na minha.
Simetria, reflexo, simetria-reflexo. Tu, o centro do meu universo.
Amor louco na solidão da floresta que se embebeda pela
linguagem impenetrável das aves que, dentro de mim, não deixam de gritar o teu
nome numa paixão que é uma doença socialmente aceite, num amor-convulsivo, numa
forma exacerbada de amor que mobiliza todos os sentidos para um fim único,
transcendente, eroticofrénico, compulsivo.
Porque o amor-convulsivo terá que ser erótico-velado,
explodente-fixo, mágico-circunstancial, ou então não será amor. Não sendo amor nem
sequer se aproximará da paixão. Paixão, salto qualitativo, giant leap da mente, do corpo, do ser, da posse total,
inquestionável.
“Vem-te!” não é uma ordem imperativa nem um pedido-imploração,
nem sequer uma sugestão ou uma palavra. “Vem-te!” é um epifenómeno, é a tua
convulsão perdida, é o teu grito explosivo. “Vem-te!” é consequência, não da
estimulação físico-frenética da tua doce e macia entrada sumarento-palpitante
de desejo, mas dum simples e quádrupulo potencial de acção que resulta do
enlouquecimento do teu desejo por um amor verdadeiro franquando sinapses,
possessivo-possuidor, exclusivo, galopante.
Tu és uma infinita fonte criadora de desejo, desejo-tesão
avassalador-avassaladora. Desejo-tesão consubstanciado num ventre que
obrigatoriamente cresce até ao espasmo em que a paixão expulsa de dentro de ti,
para nós e para o mundo, um novo ser que se torna livre para voar, ser que és
tu e eu, consubstância criada desse amor-tesão-paixão concretizado,
dupla-hélice reconfigurada, recombinação rodopiante, crossing-over CTCCTAGGACTAAAGTCA de tu/eu, paixão rematerializada,
nós.
No meu percurso embrenhado no carvalhal atrás destes montes, percurso
solitário no caminho-não-atalho perdido ao sair da sensatez, o caminho que
entre prados se insinua, rodeando-te de bálsamos, tu, a mulher ainda
desconhecida, a mulher que um dia haveria de me aparecer num olhar de
sabes-que-não-sabes-quanto-te-amo.
O meu amor convulsivo avoluma-se/acumula-se desde o primeiro
dia em que soube de ti, amor-tesão-paixão-desejo de concretização nessa aveludada
e húmida abertura que nos meus lábios jorra quentes ritmadas desvairadas
golfadas de néctar orgástico num teu grito circunstancial que se perde nesta
floresta renascida no universo onírico de me vir para ti, em ti, ao mínimo
sinal da tua perdição-tesão desfazendo-me em golfadas de esperma, mas esperma consequente
que te inunda o útero espasmódico, rompe barreiras ao encontro da concretização
do teu próprio sonho reprodutivo que se consubstanciou no meu universo onírico,
contigo também reprodutivo, conferindo significado ao significado da vida
criadora que criamos e recriamos orgasmo a orgasmo. I
wish to know the meaning of life!
Eroticofrenénico, inclemente, na procura da erupção de um
vulcão que parte de uma fonte hidrotermal do mais profundo dos oceanos, que
começa pelo tactear do teu corpo-Volúpia, da tua mente-Luxúria, pelo saborear
do teu doce-salgado suor que brota de cada poro da tua pele fervilhante, que te
aproxima e afasta da explosão, que te penetra-Ternura, transcende e
condescende, no cumprimento e incumprimento sequencial do teu desejo-ordem-súplica,
na posse de ti até que a lava brota das tuas entranhas num trovão ensurdecedor,
no raio que atravessa a escuridão do céu de lua-nova e da noite faz dia, no
estertor do teu corpo que do Inverno faz Verão, um combóio atravessa o deserto,
no teu pedido de clemência ao qual sou surdo, no teu grito para parar que não
me refreia os movimentos apenas os desacelerando por instantes, no retomar do
frenético, no patamar sinusoidal do teu orgasmo imparável porque simplesmente
não deixo que se desvaneça até que te desfaças e refaças a cada momento,
descendente, ascendente, descendente, ascendente retomo, renasço dentro de ti
alago-te, alagas-me, cumpro o desígnio milenar da consubstanciação da mistura
num orgasmo que se reconfigura embrionicamente num futuro desejado-ansiado-prometido,
recíproco, não-concluído, tomado-retomado, quando lá longe no espaço infinito
nasce uma nova estrela quando invariavelmente a meiose se converte em mitose e
se cumpre o milagre da recombinação e do crossing-over
numa recombinação policiada por uma polimerase atenta-distraída, numa
replicação eterna e monótona de cinco-linha para três-linha porque é sempre de cinco-linha
para três-linha, subjacente à formação do novo, novo teu-meu, amor louco
reafirmado no teu útero, renascimento de ti e de mim.
A tal ponto te amo que dou por mim num rodopio vertiginoso e chego
a perder-me com a ilusão de que uma janela se abriu na pétala demasiado opaca
ou demasiado transparente da loucura, que me encontro aqui sozinho, debaixo
desta árvore qual Newton à espera da maçã e que, a um sinal, o qual, por
maravilha, tarda em aparecer. Irei juntar-me a ti no seio da flor fascinante e
fatal.
A suficiência total que reina entre dois seres que se amam
deixa de enfrentar, neste momento, o mínimo obstáculo que seja.
Por seres única, nunca poderás deixar de ser, para mim, uma
outra, uma outra que és tu mesma. Amada, amante, minha, teu, em nós
reconstruídos.
Desconstruo-te e reconstruo-te a cada instante.
Desconstróis-me e reconstróis-me a cada momento na edificação do novo, nem tu
nem eu, mas um tu-eu, salto qualitativo, giant
leap.
Se, desta apaixonante paisagem que um dia destes será
arrastada pela maré, nada mais, além de ti, conseguir subtrair às
fantasmagorias da verde floresta densa de carvalhos inebriantes, ao menos
hei-de saber reproduzir esta música sobreposta aos nossos passos que ritma o
arquear das tuas ancas e ilumina o arfar dos teus orgasmos em que mil elos
visíveis e indivisíveis, na profunda noite do esquecimento calharam ligar ao
meu o teu sistema nervoso, agora um só, coordenado porque eu já não sou eu e tu
já não és tu, porque passámos a ser nós num único ser que é a nossa própria
reconfiguração-reconstrução.
Reinventar-te. Hei-de reinventar-te para mim mesmo, pelo
desejo que tenho de ver perpetuamente recriadas a poesia e a vida, vida nova,
nascente, criadora-criada. Também tu me reinventarás. Reinventa-me! Nós!
Just because
I love you, baby, how I love you, darling, how I love you, baby, how I love
you, girl, little girl. But baby, Since I've been loving you I'm about to lose
my worried mind!


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